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Se não fosse o vento, o sol, a quadra, a bola, a raquete e o juiz…

Por Toni Verdani


Existe uma verdade incômoda no tênis amador que quase ninguém aceita: ninguém nunca perde porque jogou mal. A derrota, curiosamente, sempre chega acompanhada, como se tivesse vergonha de vir sozinha. É o vento que muda a trajetória da bola, o sol que atrapalha a visão, a quadra que “não ajuda”, a bola que quica estranho, a raquete que “não responde” — como se tivesse personalidade própria — e, claro, o juiz que “não viu”. Se isso ainda não for suficiente, sempre há espaço para culpar o parceiro, o adversário ou alguma força invisível do universo.


No tênis amador, errar é quase um pecado. Assumir o erro, então, é heresia. O que é socialmente aceitável é explicar o erro com segurança, de preferência usando termos técnicos. Quanto mais técnica a explicação, menor a dor no ego. A bola saiu, mas saiu “por detalhe”. Caiu na rede, mas foi “falta de ajuste fino”. Nunca é simplesmente erro. Erro machuca demais.


A desculpa funciona como um analgésico emocional poderoso. Ela não cura nada, mas alivia o desconforto imediato. O problema é que, ao contrário de um remédio de verdade, ela não trata a causa. Ela só empurra o problema para a próxima partida, onde ele volta maior, mais insistente e com novas justificativas prontas.


Existe um momento específico em que a desculpa deixa de ser proteção e vira hábito. É quando reclamar passa a fazer parte do jogo. O ponto nem terminou e o discurso já começou. O jogador reclama do sol antes mesmo de sacar. Reclama da bola antes de errar. Reclama da quadra antes de correr. É uma estratégia emocional curiosa: se tudo está errado desde o início, o resultado ruim já nasce justificado.


Enquanto isso, do outro lado da rede, o adversário faz algo ofensivo de tão simples: ele aceita as condições e joga. Sem reclamar. Sem drama. Sem análise meteorológica. Apenas joga com o que tem. E pontua.


O tênis é cruel porque não negocia conforto. A quadra não vai se adaptar ao seu estilo. A bola não vai quicar como você gostaria. O vento não vai esperar você se sentir seguro. O jogo exige adaptação constante. Quem insiste em discutir com a realidade normalmente perde — e perde cansado, porque reclamar também consome energia.


O mais fascinante é o pós-jogo. A análise retrospectiva costuma ser impecável. Tudo fica claro quando já não vale mais nada. As decisões corretas aparecem com uma nitidez impressionante. “Era só ter jogado mais alto.” “Era só ter sido paciente.” “Era só ter variado.” Sim. Era só. Mas durante o jogo, quem estava no comando não era a lógica. Era o ego tentando se proteger.


A frase clássica aparece quase sempre: “Joguei bem, só não ganhei.”

Essa frase é um abraço no próprio ego. Confortável. Quentinho. E completamente inútil para quem quer evoluir. Porque jogar bem inclui ganhar pontos importantes, lidar com pressão e aceitar que, às vezes, jogar bem significa jogar feio.


O problema da desculpa constante é que ela cria um jogador que nunca aprende. Se o erro é sempre externo, não há ajuste interno. O forehand continua irregular, a tomada de decisão segue confusa e a maturidade emocional não evolui. Mas, em compensação, o discurso fica cada vez melhor.


Em algum momento — geralmente depois de perder mais do que gostaria — o jogador maduro percebe algo simples e doloroso: parar de reclamar não é se conformar, é assumir controle. É entender que perder faz parte. Que jogar mal acontece. Que o jogo não deve nada a você.


O tênis não está contra você.

O juiz não conspirou.

A bola não te odeia.

A raquete não resolveu te trair naquele dia.

O vento não tem preferência.


Você apenas jogou abaixo do necessário para vencer.


E isso, por incrível que pareça, é libertador. Porque a partir do momento em que a responsabilidade volta para onde sempre esteve — na mão que segura a raquete — surge algo raro no tênis amador: evolução real.


Talvez o dia em que você parar de brigar com o vento seja o dia em que finalmente comece a competir de verdade. Não contra o mundo. Não contra a quadra.

Mas contra si mesmo.


— Toni Verdani

(que já perdeu para o sol, para o vento, para a raquete e para o próprio ego — até perceber que reclamar dava menos trabalho do que melhorar) 🎾

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