O adversário não é chato. Você é que não sabe perder
- Toni Verdane
- há 5 dias
- 2 min de leitura
Existe uma frase muito comum nas quadras que raramente sobrevive a uma análise honesta:
“Perdi porque o cara é chato.”
Chato como?
Defende demais. Erra pouco. Devolve tudo. Não dá ritmo. Não acelera. Não joga “bonito”.
Ou pior: joga exatamente onde você não gosta. Em resumo, ele não colaborou com o seu plano de vitória — que, curiosamente, você nunca compartilhou com ele.
O tênis tem uma característica incômoda: ele não exige que o adversário jogue do jeito que você prefere. Ele exige que você vença do jeito que for possível. Quando o jogador não aceita isso, nasce a rotulação emocional: o adversário vira “chato”, “amarrado”, “esquisito”, “antijogo”. Quase nunca vira simplesmente — eficaz.
Existe uma confusão clássica entre rival difícil e rival desagradável. Difícil é quem tira você da zona de conforto técnico e mental. Desagradável é quem desrespeita. São coisas completamente diferentes — mas o ego costuma misturar tudo no mesmo pacote para aliviar a frustração.
Quando alguém devolve dez bolas seguidas, não está sendo chato. Está sendo consistente. Quando alguém joga alto e profundo, não está sendo irritante. Está sendo inteligente. Quando alguém muda o ritmo, usa variação e quebra seu padrão, não está “estragando o jogo”. Está jogando melhor o jogo.
O problema não é o estilo do outro. É a sua incapacidade de adaptação.
Perder dói — e isso é normal. O que não é normal é transformar a dor em julgamento moral do adversário. Essa é uma defesa psicológica clássica: se o outro “não joga certo”, então a sua derrota fica menos pesada. O placar continua igual, mas a narrativa interna fica mais confortável.
Só que conforto não desenvolve jogador. Desconforto, sim.
O amadurecimento esportivo começa no dia em que você consegue dizer: “Ele ganhou porque jogou melhor para aquela partida.” Não porque teve sorte, não porque foi chato, não porque o universo conspirou — mas porque executou melhor o necessário. Essa frase parece simples, mas exige musculatura emocional.
Respeito competitivo não é gostar do estilo do adversário. É reconhecer a legitimidade dele. Você pode preferir trocar bolas rápidas, ele pode preferir alongar pontos. Você pode gostar de potência, ele de variação. O jogo comporta tudo isso. O placar decide o que funcionou naquele dia — não a estética.
Rivalidade saudável é uma das maiores forças de crescimento no esporte. Ela eleva o nível, cria motivação, gera foco e produz evolução. Mas só é saudável quando existe respeito. Quando vira desqualificação do outro, ela deixa de ser rivalidade e vira imaturidade com uniforme esportivo.
O jogador imaturo quer vencer do seu jeito.
O jogador maduro quer vencer do jeito que funciona.
E quando perde, quer aprender — não acusar.
Curiosamente, muitos dos adversários chamados de “chatos” são os que mais ensinam. Eles expõem impaciência, revelam falhas de consistência, testam disciplina tática e desmontam pressa emocional. Eles funcionam como espelho técnico e mental — e ninguém gosta de espelho em dia de jogo ruim.
O tênis não premia quem se sente injustiçado. Premia quem resolve o problema que está do outro lado da rede — seja ele bonito, feio, rápido, lento, agressivo ou “chato”.
Talvez o adversário não seja chato.
Talvez ele só seja exatamente o tipo de jogador que você ainda não aprendeu a vencer.
E tudo bem.
Desde que você aprenda.





Comentários